A partícula

Ele não se lembra do seu passado, nunca ouviu um som, viu uma imagem ou sentiu um toque. Nem sei se posso dizer que ele era ele. Vamos chamá-lo de ele, mesmo tendo quase a certeza de ser ela.

Um dia, se é podemos chamar de dia, algo brotou em sua mente, se é que podemos chamar de mente. Ele não ouviu o enorme estrondo que ocorreu, nem viu nascerem luzes. O certo é que ele passou de um nada para algo que não sabia ser.

É difícil descrever o nada, mas o certo é que havia ali um nada e esse nada se modificou. Vamos ter que usar palavras inexistentes para ele ou ela para descrever que parece ser o nada. Ele parece ter tido a consciência de sua existência. Ele nada viu, mas algo ao seu redor nasceu, eram milhares de bolinhas, se é que podemos chamá-las de bolinhas.

Havia luzes de todos os matizes, mas ele não as via. O certo é que ele ou ela não viu as bolinhas se expandirem. Não viu as luzes se concentrarem e não viu o tempo passar. Parece ter dormido, pois ficou milhares de anos sem se dar conta que ele existia.

Um dia, como num passe de mágica, ele acordou e viu um monte de sombras, na verdade não viu nada disso, mas havia sombras. Ele viu sem ver uma enorme luz se fazer. Ele não viu o gelo condensar, não viu os planetas se formarem e nem viu os oceanos se formarem. Ele ficava ali imóvel, sem se dar conta do que se passava ao largo.

Viu um grupo de células, de repente serem criadas, viu uma delas se transformar e começar a beber água, viu uma delas sair da água para a terra, e viu finalmente a vida brotar. Digo que ele viu, mas na verdade ele nada via. Um dia ele se sentiu esticado, começou a crescer tanto para a direita, como para a esquerda. Ele tinha consciência da sua existência. Agora se lembrava de ter sido um ser vivo, e vivia a sua vida feliz. Ele nunca teve consciência de ser vivo, mas se lembrava de ter vivido. Isso lhe causou um enorme desgosto. Pois nunca tinha vivido a vida que parecia ter vivido. Se lembrava de bichos de gente de pedras. Se lembrava de carros, de dinheiro e de riqueza.

Se lembrou de mortes, de destruição e de guerras. Quanto mais se lembrava disso, mais se sentia angustiado. Ele viu toda a evolução do universo sem participar dela. Era apenas um ponto sendo esticado tanto para a direita, quanto para a esquerda, na verdade por todos os lados.

A sua mente começou a viajar, primeiro lentamente, lendo, depois mais rápido, cada vez mais rápido até que se viu preso em uma expansão infinita. Ele era o centro do universo e num esforço supremo ganhou voz é gritou. “Eu não existo”!

O texto é uma cortesia do Rodrigo Antonio Sarmento. Agradecemos sua confiança! Se você também tem um texto especial, uma crônica, conto ou poema, envie para nós no e-mail: contato@literalmenteuai.com.br. Esse espaço é dos leitores. 

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