As crianças esquecidas de Hitler

As crianças esquecidas de Hitler – Ingrid Von Oelhafen e Tim Tate

Livro apresenta a verdadeira história do programa Lebensborn narrada por uma das vítimas.

Quando você acha que não tem mais como se surpreender com as horripilantes histórias do Nazismo, eis que surge Ingrid Von Oelhafen e te apresenta a sua história real sobre o programa Lebensborn e as crianças esquecidas de Hitler. Literalmente, uma fábrica cujo objetivo era gerar a próxima raça suprema.

Nada mais nada menos que a geração e seleção de bebês e crianças consideradas dignas da pureza pregada pelo regime nazista. Isso mesmo, um programa para garantir que a próxima geração alemã fosse formada apenas por aqueles considerados sangue puro. Sob o slogan “Dê uma criança ao Führer”, o programa era tão valioso para o regime que era liderado pelo chefe supremo SS, Heirinch Himmler.

“Cabia ao programa Lebensborn a responsabilidade de prover e assegurar a próxima geração – uma raça suprema, gerada por seleção, para governar o império global do Reich de Mil Anos de Hitler.” Pág. 130.

Essa obsessão nazista pela raça pura extrapola todo e qualquer sinal de racionalidade, quando crianças de outros países são retiradas dos seus pais e obrigadas a viver em lares adotivos nazistas. Ou pior, quando os membros do partido nazista são incentivados a dormir com mulheres consideradas de “raça pura” com o único propósito de gerar bebês “puros”.

A ordem do governo não só incentivava o sexo livre entre os “puros” como também garantia que não haveria penalidades financeiras por gerar crianças ilegítimas, ou qualquer preconceito social. Por outro lado, a quem se negasse a participação, recairia uma enorme carga de tributos. Lembro que todo o esquema do Lebensborn envolvia cientistas, médicos, e os homens e mulheres eram submetidos a testes genéticos e investigação da árvore genealógica. As crianças retiradas de suas famílias eram minunciosamente examinadas e classificadas, aptas a participarem da germanização, e entrar para o programa Lebensborn. 

Em As crianças esquecidas de Hitler, acompanhamos uma investigação de mais de três décadas, de uma das crianças Lebensborn em busca de sua origem.  Sob os olhos de Ingrid, temos acesso ao legado da Guerra, um período ofuscado pelas barbáries do nazismo tanto na literatura quanto no cinema.

Invariavelmente, as produções literárias do período, pelo menos a maioria publicada no Brasil, foca no auge da Guerra, como nos best-sellers: “O menino do pijama listrado”, “A menina que roubava livros”, Beco da Ilusão “Diário de Anne Frank”, “Eu sobrevivi ao Holocausto”, “Para além do Diário de Anne Frank”. Esse pós-guerra me surpreendeu bastante, e para quem gosta de história, esse é mais um motivo para ler.

Confira o Booktrailer de As crianças esquecidas de Hitler:  

A história de Ingrid começa exatamente neste período, retratando a situação dos alemães no pós-guerra e o vergonhoso legado deixado pelo Nazismo. Dos milhares que morreram nos confrontos com os aliados, Alemanha era agora um país em sua maioria de crianças e mulheres, famintas e desprotegidas, largadas a mercê dos aliados e da violência em constante crescimento. E, foi esta parte que mais me chamou atenção. Para fugir da violência, dos Schweigelanger (campos de concentração pós-guerra) e da ameaça constante de roubos e abusos sexuais, a família de Ingrid precisa deixar a casa onde vive, agora sob o domínio militar russo, e buscar abrigo na casa de parentes, privilegiados por estar do lado “americano” da Alemanha. No lado soviético a realidade era ainda pior, uma vez que os próprios militares eram os responsáveis por tais atrocidades.

Os dados são tão impactantes que parei a leitura para pesquisar mais sobre o assunto e separei alguns trechos.

“um país faminto e morrendo de inanição; uma população reduzida à luta desesperada por sobrevivência, em que homens, mulheres e crianças consumiam, quando muito, metade das calorias necessárias para viver…” (pág. 23)

“Quase 43 mil homens e mulheres morreriam atrás do arame farpado desses campos de concentração pós-guerra. “ (pág. 31)

“O estupro era tão comum no setor soviético  – tanto que deixou de ser notícia – que, para mulheres e garotas entre a puberdade e a idade adulta, a questão não era se elas tinham sido violentadas, mas sim quantas vezes.” (pág.32)

“Nos últimos meses da guerra, Hitler e Goebbels atiçaram as chamas do medo nacional, fazendo propaganda constante da brutalidade do Exército Vermelho – e, no momento em que invadiram o solo alemão, os ocupantes soviéticos fizeram jus ao pior dessas predições”. (pág.33)

Ao longo da história, Ingrid não poupa o leitor e escancara essa nova realidade. A retratação do período pós-guerra me surpreendeu bastante porque temos sempre a imagem das atrocidades de Hitler com relação aos judeus e às minorias, mas pouco acesso ao que os alemães e outros povos de países vizinhos sofreram, tanto nas ideias do Führer, quanto sob o domínio dos aliados. A narrativa de Ingrid se expande a outros territórios e, consequentemente, novas atrocidades são reveladas. Em sua busca pela verdadeira origem, ela traça o contexto histórico e político de vários países europeus, como a antiga Iugoslávia.  

É um livro bem construído, bem escrito e embasado. Com dados, imagens e fatos reais, Ingrid construiu uma narrativa chocante e, ao mesmo tempo, envolvente que te prende e te faz querer se aprofundar no tema. Mergulhamos fundo em sua busca pela verdade e torcemos muito para que ela consiga desvendar esses mistérios.

As crianças esquecidas de Hitler é um inacreditável quebra-cabeças da vida real, em que cada peça encaixada desvela o horror por trás das ideias de pessoas que dedicaram toda uma vida em propagar o ódio e o preconceito.

O livro foi publicado no Brasil pela Editora Contexto. Você pode adquirir neste link

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