O doce perfume dos Ipês

                                                                                                                Foto: Charles Tôrres- Blog O Casal da Foto

 

 

EXTRAÍDO DO JORNAL ‘SUA NOTÍCIA’ DE BELO HORIZONTE, DIA 01/11/2017:

Dois homens foram encontrados mortos na Avenida Afonso Pena, no cruzamento com Avenida do Contorno, na manhã desta segunda-feira. Até o momento, a perícia não informou a causa da morte. Informou apenas que os corpos foram encontrados totalmente dilacerados impossibilitando a identificação.

A polícia está investigando como os corpos foram parar lá, tendo em vista a inexistência de veículos abandonados e qualquer documentação junto aos homens. Além disso, os vizinhos relataram não ter percebido qualquer movimentação estranha. Com os dois, se chegou ao número de 14 homens encontrados mortos na avenida no último mês. Todos os casos ainda sem solução.

***

Subo e desço a Avenida Afonso Pena com minha esposa há 10 anos, diariamente.  Cinco dias por semana, duas vezes por dia. Fazer o mesmo trajeto todos os dias faz com que, aos poucos, a gente deixe de enxergar as nuances, as novidades, ou qualquer mudança no caminho. Nosso percurso fica monótono e automatizado, fazendo com que deixemos de percebê-lo completamente. De segunda a sexta, às sete da manhã e às seis da tarde, estou no meu carro, vidros fechados, ouvindo minha rádio, subindo e descendo a avenida mais famosa da cidade. Eu nunca me importei com ela, que sempre foi mais do mesmo pra mim, como qualquer outra. Carros, concreto, árvores, pessoas pra lá e pra cá. Ela nunca teve nenhum diferencial, nada que me fizesse pensar que era especial, nada que mudasse um segundo sequer da minha entediante rotina. Até o dia dois de novembro, uma data que mudou pra sempre minha relação com a avenida.

Minha esposa estava de férias e, por mais estranho que pudesse parecer pra mim, resolvi ficar no trabalho até mais tarde, sair da rotina. Por algum motivo que eu não sei explicar, não queria sair do trabalho no horário de todos os dias, alguma coisa me tocou às seis da tarde, foi como uma voz que não falava, apenas sussurrava no meu inconsciente, dizendo para ficar. E, essa voz foi incisiva, insistente, convincente, e, pela primeira vez em dez anos, fiquei no trabalho depois do horário. As horas foram passando, sete, oito, nove… Minha esposa ligou cobrando explicações, eu disse que estava resolvendo uma pendência, uma crise, algo muito importante que apareceu de última hora e que tomara de mim toda atenção. Mentira, não tinha nada importante pra resolver, eu apenas não queria ir embora. Por volta das dez da noite a mesma voz, mesma sensação, tomou conta de mim mais uma vez, agora, porém, ela dizia que era hora de ir embora. Sabe essas vozes que você não consegue lutar contra, algo forte e poderoso que você não sabe de onde vem e muito menos por quê? Foi assim que eu senti que deveria sair.

Desci para o estacionamento e senti o vento que balançava os Ipês na avenida que se estendia abaixo. Era um vento frio, mas não um frio comum, era como um sinal. Algo que arrepia e gela a espinha. Frio como o que antecede um acontecimento ruim. Entrei no meu carro e saí do estacionamento. Notei com espanto que a Afonso Pena estava mais parada que o convencional. Na verdade, foi o momento que notei como estava tudo estranho. Não havia carros subindo ou descendo e pela hora, era para estar tudo lotado ainda. Um silêncio dominava completamente as calçadas e nenhuma loja ou lanchonete estava aberta. Nem sequer aquelas porcarias de botecos barulhentos que eu tanto detestava estavam disponíveis para os cachaceiros de plantão. Desci lentamente, olhando por todos os lados aquela estranheza. Não podia ser normal. Eram apenas dez da noite!

Parei no quarteirão seguinte e encostei o carro. Nada e nem ninguém por perto. Com exceção dela. Senti seu perfume doce, antes mesmo dela aparecer na janela do passageiro. Seu cheiro me lembrava os ipês na primavera. A presença me assustou, mas ao mesmo tempo, me atraiu. Era como um imã. Nunca a tinha visto, mas sentia que ela mandava em mim, faria qualquer coisa que pedisse. Ela se abaixou até seu rosto ficar visível na janela e era a visão mais linda que eu já tinha visto. A mulher mais linda que poderia existir. O seu rosto era perfeito, cada mínimo traço estava em seu lugar, tudo era simétrico. O cabelo era tão brilhante que poderia facilmente refletir a luz do poste acima dela. Um corpo lindo e o sorriso mais maravilhoso que eu já havia visto. Parecia que tudo nela era feito para atrair, e era.

Ela pediu para entrar no meu carro e no mesmo instante meu telefone tocou. Era minha esposa ligando e parecia que algo queria me puxar para a realidade, me dar uma chance. Como se alguém em algum lugar quisesse me dar uma oportunidade de tomar um caminho diferente. Contudo, olhei o rosto da minha mulher na tela do celular e apertei o botão de rejeitar a ligação. Instantaneamente, ela sorriu um riso prazeroso, vitorioso. Não entendi, mas também não fiz a menor questão de entender. Ela me olhou nos olhos e disse que a única vontade que tinha era se divertir comigo, e perguntou se eu gostaria de lhe proporcionar muita diversão. Fiz que sim com a cabeça. “Então vamos pra um lugar”, ela disse com a voz mais feminina e doce possível.

Seguimos no meu carro em silêncio até uma casa, dessas tombadas, de mil novecentos e uns quebrados. Uma casa que estranhamente eu nunca tinha visto. Mas como eu pouco reparava na avenida, deixei esse fato pra lá. Ela saiu do carro sem olhar pra mim, sem olhar pra trás, e subiu as escadas com um andar lento e glorioso. Subi atrás dela com o coração acelerado. Ao fim das escadas um corredor se agigantava à minha frente, poucas luzes, muito mal iluminado. Havia no ar um calor e um cheiro que eu não conseguia identificar, era algo quente, algo que eu não conhecia. Diversas portas estavam fechadas, apenas uma aberta, aquela em que ela entrou. Assim que cheguei frente ao quarto parei sob o marco da porta e algo me segurou por um segundo. Era como se, mais uma vez, alguma coisa quisesse me impedir de consumar o ato que eu tanto desejava desde que senti o perfume dela na Afonso Pena. Lutei contra a sensação e assim que dei o primeiro passo na direção do interior do recinto senti que ela não voltaria mais. Eu estava sozinho de agora em diante. Entrei no quarto e no segundo seguinte a porta se fechou atrás de mim com um baque forte e estridente. Era um quarto pequeno, escuro e sujo. Uma única janela de madeira fechada. Em nada, digno daquela mulher maravilhosa. Mulher essa que, por sinal, eu não via mais. Devia estar dentro do minúsculo banheiro. Era um aposento que também exalava o mesmo cheiro que o corredor. Cheiro esse que agora me parecia mais familiar, contudo ainda não conseguia dizer o que era. Procurei por luminárias, mas não encontrei, teria de me contentar com aquela meia luz que me impediria de ver aquele corpo perfeito de forma completa.

Quando a pequena portinha do banheiro se abriu, instantaneamente minha memória trouxe a tona o cheiro que eu sentia e não sabia identificar. Era cheiro de sangue. O que saiu lá de dentro não podia ser real. Não era deste mundo. Algo disforme, asqueroso, e que exalava o cheiro de sangue que inundava minhas narinas. Estranhamente foi como se minha mente voltasse ao normal, como se até agora estive bloqueada por uma visão imagética do que de fato era real. Como se abrisse uma cortina na minha cabeça. Alto, forte, nojento e, principalmente, sedento. Aquela criatura era o que instantes atrás era a mulher ideal. Fiquei parado, sem conseguir mexer um músculo sequer. Apenas meus olhos encaravam aquele monstro que me olhava com fome. Seus dentes escorriam uma baba preta e, antes que eu pudesse raciocinar, a criatura avançou sobre mim e eu perdi a consciência.

Acordei sem saber quanto tempo tinha se passado e uma dor lancinante se apossou de mim. Com esforço, levantei minha cabeça e percebi que aquele monstro estava debruçado sobre minha perna esquerda e se alimentava dela com voracidade. Percebi também que a perna direita já não existia, e apenas um osso branco ainda estava grudado à minha coxa. Essa foi a visão mais assombrosa da minha vida e por alguns instantes pensei em me deixar ser inteiramente comido, afinal eu era mesmo um bosta e merecia aquele fim. Eu fora avisado, algo tentou me impedir, mas meu ímpeto de mau-caratismo tinha falado mais alto e me levado até aquele momento.  Entretanto, a visão da minha filha, chorando, sem saber o destino do pai, falou mais alto e tentei encontrar uma solução. Senti a chave do meu carro pressionar meu bumbum e com força sobre-humana levei minha mão até ela, firmei-a na mão e icei meu corpo na direção da coisa, cravando-a em seus olhos grotescos. Aquilo gemeu e se afastou um pouco, soltando guinchos de dor. Essa era minha única oportunidade. Coloquei toda força que ainda me restava em meus braços, me arrastei até a janela, segurei na beirada e com o peito encostado na madeira, empurrei com toda força. Me joguei da janela sem imaginar quantos metros seriam até o chão. Caí como uma bigorna na calçada da avenida e senti todos os meus ossos se quebrando. Antes de perder a consciência mais uma vez pude ver a janela da qual caí e os enormes olhos negros que me encaravam com ódio. Em seguida, tudo desapareceu.

Acordei neste hospital ontem, sem as pernas, sem grandes pedaços de carne nos braços e barriga e com um longo tempo de recuperação física pela frente. Recebi a visita de um advogado que trazia os papéis do divórcio exigido por minha esposa. Recebi policiais, aos quais contei o que tinha acontecido, mas puder ver o riso de deboche em suas feições. Não posso culpá-los, afinal, quem acreditaria? Hoje, pedi para que a enfermeira lesse as notícias a meu respeito. Todas diziam que um louco havia invadido uma casa abandonada na Avenida Afonso Pena e que caíra da janela. Nenhum deles, contudo, deu conta de explicar de onde vinham tantos ferimentos. Os jornais falavam também que, assim que me recuperasse, eu seria transferido para um hospital psiquiátrico. Agora pouco a responsável pelo hospício veio me ver. Era linda e exalava um perfume doce, como as flores dos ipês.

Especial BH 120 anos. Veja outros contos sobre a cidade aqui!

 

Deixe o seu comentário

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *