Holocausto Brasileiro: Mais de 60 mil pessoas morreram em um hospício na cidade de Barbacena

A primeira pergunta que vem à mente e num bom mineirês, é:  “Uai, teve holocausto no Brasil?”, porque o único holocausto de que temos conhecimento, nos remete a Hitler, a Alemanha, aos judeus nos campos de concentração e a 2ª Guerra Mundial, exaustivamente repassados em vários momentos escolares. E aí, de repente, vem uma jornalista nos dizer que não só houve um holocausto brasileiro, como ele se passou aqui, em Minas. Mais de 60 mil pessoas morreram. Para termos uma ideia do que esse número representa, o público do famigerado 7 a 1 no Mineirão, entre Brasil e Alemanha, reuniu 58.141 pessoas. Já a final da Copa do Brasil entre Cruzeiro e Flamengo, em 2017, reuniu 61.017 pessoas. Em Barbacena, interior de Minas Gerais, mais de 60 mil pessoas morreram, em 8 décadas, marcadas pela total violação dos direitos humanos.

Holocausto Brasileiro é o desdobramento de uma série de reportagens, produzidas pela nossa autora do mês de fevereiro, a jornalista Daniela Arbex, para o jornal Tribuna de Minas. A história foi tão impactante que virou um livro-reportagem. Nele, a jornalista apresenta por meio de relatos, fotos e documentos oficiais, várias histórias de pessoas que, consideradas “loucas” foram enviadas ao maior hospício do Brasil, o Hospital Colônia, na cidade de Barbacena. O que se descobre é que o Colônia era uma fachada para atrocidades, um depósito de pessoas indesejadas na sociedade.

“Holocausto Brasileiro” é sobre pessoas que foram torturadas, espancadas, violentadas, dormiam ao relento e morriam de frio. Comiam ratos, bebiam água de esgoto e urina. É sobre como a sociedade, autoridades, políticos, funcionários, entidades religiosas e por que não as pessoas comuns, deixaram que essas barbaridades acontecessem com seres humanos, seus filhos, filhas que tiveram seu destino traçado ao embarcarem no “trem de doido”, que cortava as montanhas de Minas, abarrotados por aqueles taxados como “loucos”. Os sintomas? Timidez ou tristeza, perda da virgindade, gravidez indesejada. Moças desobedientes eram enviadas ao Colônia. Empregadas que engravidavam dos seus patrões, também. Homossexuais tinham como destino, o hospital. Pessoas encontradas sem documentos, vagando nas ruas da capital, ganhavam uma passagem no “trem de doido”, que também tinha espaço até para crianças.

Daniela entrevistou ex-funcionários do hospital, pacientes, parentes, moradores de Barbacena, que com seus depoimentos reais e fotos da época, nos faz mergulhar num passado desconhecido para a maioria de nós, mas que foi eternizado nas páginas deste livro. É uma história tão desumana e cruel que a autora não poderia ter dado outro nome, “Holocausto”. Daniela nos apresenta uma história fantástica, com uma linguagem simples, de fácil compreensão, capaz de nos sensibilizar e fazer refletir sobre a maldade humana. Na Alemanha, o grande vilão foi o Hitler, mas aqui, os vilões foram todos aqueles que fizeram vista grossa diante de todos as barbaridades ocorridas no Colônia. Não é apenas uma reportagem, é ter acesso ao desdobramento da verdadeira história do Brasil, muito além do que aprendemos na escola.

“Holocausto Brasileiro” é um dos melhores livros que já li, em toda a minha jornada literária.

É o tipo de livro que a cada página virada vai te despertando sentimentos diversos. É simplesmente um tapa na cara de uma sociedade que sempre acreditou que vivemos num país de igualdade, sem preconceitos, justo, pois cada vez que alguém remexe no passado, explica porque chegamos ao estado que vivemos hoje. Não precisa nem falar que indico esse livro, não apenas para quem gosta de ler, mas, principalmente, para quem se interessa por conhecer o passado real, menos romântico do nosso Brasil.

O livro deu origem ao documentário no canal History Channel Brasil. Você pode ver algumas das pessoas que participaram do livro e claro, vai se emocionar com os relatos. 

Daniela Arbex é a escritora do mês de janeiro. Saiba mais sobre ela clicando aqui

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