A impossibilidade do abraço

Por: Rafael Sanzio 

Pode ter começado pela menina dos olhos. Olhei lá dentro e enxerguei a mim mesmo. Ou pode ter sido pela parte externa, mais aparente e imediata: os olhos de gatinha tristonha, com algo de desenho japonês, cor de mel, brilhantes e expressivos, que tanto transparecem, que tanto a expõem, que tanto a entregam – porque ela é assim mesmo, quase que um livro aberto. Eu não apenas soube que ela trazia algo quebrado dentro de si; algo que crescera torto como uma planta carente de cuidados, para o qual não havia possibilidade de reparo. Eu soube exatamente o que ela sentia.

Naquela situação fugaz de rede social, volátil e descartável, eu soube que ela era minha amiga. E não era minha amiga porque compartilhávamos gostos e preferências. Éramos amigos porque… éramos amigos. Distantes fisicamente, não nos enxergávamos, não nos víamos, mas sabíamos exatamente o que o outro estava vivendo, porque ambos compartilhávamos aquele algo quebrado, aquela sensibilidade pisoteada, e isso era a própria existência de cada um.

Alguns anos depois, quis a vida que houvesse um encontro pessoal. E eis que aquele abraço, tão longamente sonhado e ensaiado, não encontrou seu espaço, sua abertura, sua cavidade, no corpo dela. Tocá-la é brincar perigosamente com fogo. Seu abraço tem algo de esquivo, de seco: uns braços que não abraçam, duas mãos que encostam sem tocar, estranhamente conectados a uma das pessoas mais belas e sensíveis que já conheci.

Descemos juntos a rua da escadaria, é fim de noite de carnaval – talvez um sábado controverso, uma fantasia equivocada. Sabendo que o álcool solta as rédeas da língua e desperta a fome de abraços, digo-lhe, no sobressalto de uma importante ressalva, que não é preciso nenhum esforço para gostar dela; que gosto tanto dela assim, e não apesar de; que não há uma outra versão dela para ser querida, ou “eus” alternativos, ou verdadeiros, e essas bobagens de senso comum. Mais próximo, fisicamente, do que ela normalmente permitiria, percebo o quanto minhas palavras reverberam nela; que aquela moça aparentemente durona e de poucos sorrisos me olha com uma expressão, assim, de cachorrinha abandonada, de uma tristeza infinita, insondável. Mesmo uma cidadela tem seu lado indefeso. Eis o dela: como ela é permeável! Compreendo o poder que tenho em mãos: seria tão fácil machucá-la, feri-la de forma profunda.

Descoberto esse campo, guardo-o como lembrete de onde jamais devo pisar, do que devo cuidar e cultivar. Ela, então, me diz que não devo me aproximar tanto; que não devo abraçá-la, que é melhor não tocá-la. Um texto da escritora barcelonesa Laura Ferrero me vem à mente, junto com a imagem de um círculo, uma superfície perfeitamente redonda. Talvez, minha amiga seja exatamente isso: uma esfera completa, fechada, que traz, por dentro, suas idiossincrasias, suas imperfeições, suas peças quebradas; e, por fora, uma superfície lisa e perfeita que não permite o encaixe, nem mesmo o toque. Eu mesmo posso ser a outra superfície, cheia de vãos e de cavidades, e meus espaços abertos não encontram, nela, o seu lugar de encaixe – o que me falta não está nela. Apesar de todas as ausências que cada um traz em si, não logramos de uma comunhão. Não nos abraçamos. Mas, como já disse Caetano, “onde queres eunuco, garanhão”.

Estou, já, há alguns dias na cidade mágica. Pátria dos Inconfidentes, correspondência grata de firmes amizades e, em arquitetura e beleza, única, onde todas as pontes dão no coração. Ela, agora, está diante de mim. Todo o conjunto da minha amiga foi desenhado pela natureza com a mais sublime imperfeição: os olhos, já descritos acima, que todos acham bonitos; a pele branquinha; as gordurinhas mais agradáveis; as coxas mais lindas do mundo, deliciosamente torneadas, cheias, roliças, muito bem malhadas, e que todos admitem que, nem mesmo na Igreja do Pilar, há coisa mais bonita de se ver, tampouco visão mais inebriante; as costas fortes e os braços carnudos, sem diminuir em nada sua elegância; e um busto pequeno, talvez duas pequenas maçãs que caibam na palma da mão, detalhe sobre o qual posso apenas conjecturar. À distância, a imaginação se inflama bem mais pelo que supomos do que pelo que vemos.

Montei, durante esses dias, um quebra-cabeças com a sua imagem, observando as diferenças entre a pessoa de carne e osso, que estou conhecendo, e a amiga virtual, como se fosse possível duplicá-la. Lembro de quando ouvi sua primeira risada. Conheço seu olhar quando ela não gosta de algo. O temperamento de ferro e a honestidade de caráter me conquistaram desde o primeiríssimo minuto. Do rosto à expressão corporal, tudo nela é transparência em vez de arte, humanidade em vez de egoísmo, franqueza em vez de jargão.

Mesmo em suas pequenas dissimulações, mesmo quando faz aqui e ali pequenas malvadezas, ela se torna uma caricatura de si mesma muito bonitinha de se olhar e de se admirar. Já sei como ela espirra. Em falsete, com delicadeza, o que me traz de volta uma pergunta que tem a idade da nossa amizade – como será que ela ama? É um começo de tarde, tomamos café na cozinha e conversamos. Ela fala com vivacidade, emenda um assunto no outro, com tom professoral de historiadora, jamais excessivo, sempre envolvente e encantador.

Nossas diferenças, seus defeitos, vão sendo sublimados no som de sua voz. Não sei se deixei que a conversa fosse se tornando um monólogo aos poucos, mas, quando dou por mim, estou em silêncio, observando sua boca pequena se movimentar. O seu sotaque mineiro nos meus ouvidos do sul. Uma seleção dos Noturnos de Frédéric Chopin, executados por Vadim Chaimovich. Entre o sul e o norte, Minas fica no meio do caminho. Todo mundo gosta de mineiros, todo mundo deveria conhecer uma mineira.

Os dias sem ela são chatos. Eu a ouviria falar noite e dia. A fina inteligência, a cultura acadêmica, o bom gosto, a elegante propriedade sobre os assuntos que aborda, contornados por um certo orgulho pessoal indomável. Ela seria capaz de falar sobre qualquer coisa. Claro, há sempre uma e outra discordância, talvez um disparate aqui e ali sobre a necessidade de proteína animal, ou a defesa de um novo partido que anuncia um liberalismo antigo. Penso em contra-argumentar, mas teria que esperar os intervalos entre os noturnos ou interrompê-la. Não a interrompo. Não por boas maneiras, mas por puro egoísmo. Não é para que ela continue falando que não a interrompo, é para que eu não pare de ouvi-la.

A essa altura, o pianista lituano inicia o Opus 9, Número 2, em E Maior. Submerjo lentamente na música, ou na voz dela, mais e mais fundo, talvez com o rosto já repousado sobre a mão. Continuo olhando para a boca, tão bem desenhadinha, e penso em olhar firme, penso em deixar claro para onde estou olhando quando minha amiga ergue os olhos para mim. Acompanho o movimento. Não, não agora. Melhor seguir desfrutando desse estar junto.

Tenho consciência das distâncias. Ah, bruta flor do querer! Ouvi-la por um dia inteiro, uma noite inteira, um amanhecer com neblina entre as montanhas, e, então, mais um dia, e mais um anoitecer, e mais uma noite, quem sabe, até mesmo, próprios para uma camisola de seda cor-de-rosa. Uma rosa triste. Noite e dia, noite e dia, tão longe de casa, tão perto e tão longe, tão em paz, tão bom. Ouço hesitar um pedaço da coxa branca, que ela expõe mais e mais, sem se dar conta, vestida que está no rigor da moda veranil. Ela ergue o olhar outra vez, ergo também; ela baixa os olhos, eu acompanho; ela torna a me olhar, eu a encaro. Lenta e discretamente, ela muda de posição na cadeira. Uma pausa para um gole de café. Talvez ela saiba dos meus olhares, mas quem sabe dos meus ouvidos? Há um riozinho, logo atrás da janela, que é possível ouvir correr, e o Noturno também continua soando.

Se um dia houver apenas o silêncio entre a gente, terei guardada essa fotografia do meu carinho por ela.

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