Há um mito em torno da literatura nacional de que o brasileiro não lê. É claro que isso se reflete no nosso dia a dia, na política, nas relações interpessoais, nas redações do ENEM e em várias outras áreas que se forem citadas aqui vai virar textão. Mas, cada vez que pesquisas sobre dados de leitura são divulgados, há um misto de esperança e desespero. Esperança quando vemos resultados como o da última pesquisa “Retratos da Leitura do Brasil” (2016), que apontou um crescimento de 6% no número de leitores, passando de 50% da população em 2011, para 56% em 2015. E desespero quando a mesma pesquisa mostrou que o brasileiro lê apenas 4,96 livros por ano. Você não leu errado, por ano mesmo, 365 dias. E deste total de livros lidos, 2,43 foram terminados e 2,53 lidos em partes. A bíblia continua liderando todos os rankings da pesquisa como o último livro lido e o livro mais marcante. Mas o que chama mesmo atenção nessa pesquisa é que, para 67% dos entrevistados, não houve uma pessoa que incentivasse a leitura. E esse empurrãozinho faz toda a diferença em qualquer idade.   

Já falamos aqui sobre a importância do incetivo a leitura na infância que traz diversos benefícios tanto para os pais quanto para os filhos. Quando vivemos em um ambiente de literatura, conseguimos enxergar no celular da pessoa na fila do supermercado que ela não está mexendo no Whatsapp, mas se deliciando com alguma história em e-book. Torcemos nosso pescoço para identificar que livro o passageiro no ônibus está lendo. Sabemos o que é e para que serve o Skoob. Sabemos que o Kindle é a grande ferramenta de leitura da atualidade. Que o livro físico não perdeu o espaço e que tem gente que lê mais de 100 livros por ano. São pessoas que brigam para que você leia, e rápido, a última ressaca literária que teve. Sim! As ressacas aqui são de boas histórias. São pessoas que isoladamente promovem a literatura e fazem muito bem àqueles que cruzam o seu caminho. Mas essas pessoas não estão nas pesquisas e não representam o que elas apontam. Por isso, precisamos saber: onde elas vivem? O que comem? Como contribuem para o aumento no número de leitores? Como modificam vidas!

A resposta é fácil, com ações simples realizadas no trabalho, na escola, na igreja. São pessoas normais como eu e você, trabalhadores, estudantes, mulheres e homens, pretos e brancos, velhos e novos, que suam muito para pagar as suas dívidas. São pessoas como a Letícia Pimenta, criadora do #ClubedoLivroBH. Esqueça aquela ideia de que “clubes de livros” são chatos, monótonos, que só discutem clássicos e livros que ninguém entende. Aqui, ler não é um ato solitário, pelo contrário, compartilhar histórias também faz parte de um bom leitor. Mas antes de apresentar o clube, precisamos falar do esforço dela e de toda a sua trajetória para construir o maior clube de leitura de Minas Gerais.

Letícia Pimenta

Sabe a importância do incentivo? Pois bem, Letícia teve. Primeiro da irmã Laila, que lia para ela passagens da bíblia e depois explicava de maneira bem simples para que pudesse compreender. Depois o irmão Hugo que, apaixonado por histórias em quadrinhos e dono de uma coleção rara, também abria mão do seu tempo livre para ler para a irmã mais nova, explicando cada trecho com paciência e carinho. Introduzida no ambiente literário, quando entrou para a escola, Letícia deslanchou de vez e começou a pegar as revistinhas em quadrinho do irmão mais velho. “Eu pegava as revistinhas e ia para o banheiro ler escondido, tinha medo de ele brigar. Isso durou um ano, até que minha mãe começou a questionar porque eu ficava tanto tempo no banheiro. Um dia ela abriu a porta e eu estava lendo”, conta. O irmão soube da história e autorizou o acesso as valiosas revistinhas. Sabendo do seu interesse pela leitura, a mãe e o irmão passaram a presenteá-la com Almanaques da Turma da Mônica. Na adolescência, conheceu Harry Potter e também a amiga Tamires que, apaixonada pela série, emprestava os livros e dava spoiler para incentivar a amiga a continuar. Quando saiu da escola, passou por um momento turbulento com a perda da mãe. Em 2012, uma doença levou Letícia a fazer terapia, estava com a memória ruim e dificuldades para escrever. Por orientação médica, começou a ler mais e escrever sobre os livros que lia. “Os livros sempre foram o meu conforto, me acalmam”, ressalta. Criou o blog “Louca escrivaninha”, mas sofreu muito bullying na internet por conta dos erros de português. Recebia muitas críticas e superou todas elas, aprendendo a pedir a ajuda, alcançando mais seguidores e ganhando a confiança das editoras.

Letícia Pimenta e Laila Pimenta

O blog “Louca escrivaninha” estava no ar há um ano quando Letícia começou a sentir que várias pessoas a procuravam nas redes sociais. Queria saber quem eram essas pessoas que comungavam da mesma paixão pelos livros. Procurou por grupos de leitura em Belo Horizonte e não encontrou nada. Por isso, seguiu a lógica do faça você mesmo e, contando com o apoio da família, decidiu criar um evento para conhecer essas pessoas. O primeiro encontro do clube, em 2013, reuniu quatro pessoas em um shopping da capital. Um fracasso? Que nada! Movida pelo desejo de fazer acontecer, ela insistiu. O segundo encontro, no mesmo ano, foi um pouco melhor, cerca de 20 pessoas estiveram presentes no Parque Municipal, onde participaram de brincadeiras, bate-papo e ganharam livros comprados pelas irmãos Pimenta, para sorteio entre os participantes. O terceiro evento reuniu 50 pessoas. Letícia passou a ir aos eventos literários que ocorriam na capital para distribuir cartões do clube e incentivar as pessoas a participarem. Com isso, o clube foi crescendo. “Um boca a boca que deu certo, algo bem mineiro, que confia muito mais no que os outros falam do que naquilo que vê na internet ou na televisão”, ressalta. Em 2016, 390 pessoas participaram do aniversário de 3 anos do clube. Neste ano, nos seis eventos realizados até agora, cerca de 1500 pessoas estiveram presentes. As parcerias com as editoras trouxeram brindes. Letícia não precisa mais tirar dinheiro do próprio bolso para comprar os livros que serão sorteados nos eventos.  O “Louca escrivaninha” virou “Coisas de Mineira”. Hoje, ela conta com uma ajuda de voluntários, denominados “Anjos”, amantes da literatura que ajudam na organização dos eventos, na promoção das ações e na gestão das redes sociais. O clube transformou a vida de toda a família Pimenta.

17º Encontro do Clube do Livro BH
Marlucy Silva

Sensacional, inclusivo, especial, divertido, leve e acolhedor, foram algumas das palavras citadas pelos participantes para definir o clube, que não transformou apenas a vida da Letícia, mas de várias pessoas como a estudante Stephanny Manini, 19 anos, que conheceu o Clube do Livro em 2015 e hoje faz parte da equipe de Anjos. “Eu conheci o Clube do Livro em 2015 e naquela época eu era extremamente tímida. Minha amiga me levou pela primeira vez e foi bem diferente do que eu imaginava, pois achava que ia me sentir deslocada, mas assim que cheguei foi exatamente o oposto, elas interagem com a plateia de um jeito que foi me deixando mais à vontade. Cada evento que eu ia, mais eu interagia e conhecia pessoas novas”. Foi assim também com a analista contábil, Katherine Gomes, 30 anos. Ela conta que conheceu o clube há um ano e estava passando por um momento muito complicado, cheia de problemas pessoais e amargando o fim de um relacionamento. “Eu me senti acolhida no clube. Lá elas não te julgam, não fazem acepção de pessoas ou estilos. Todo mundo é igual. Eu aprendi que quem lê não está sozinho”.  A professora Marlucy Silva, 35 anos, fala sobre a importância do clube como grande ferramenta de socialização. “O Clube do Livro te dá a oportunidade de sair da sua zona de conforto, te desafia a conhecer autores, histórias e principalmente pessoas com gostos e histórias variadas. Nos encontros, você tem a chance de dizer que não entendeu nada da leitura, que odiou aquele final e mesmo assim continuará amigo de todo mundo, já que ninguém irá te julgar por isso”. 

Luiz Fernando com Letícia Pimenta

Conhecer pessoas que gostam de literatura, passar tardes agradáveis e divertidas, poder interagir e desabafar depois de ficar com aquele personagem embuste engasgado na garganta, compartilhar um crush literário e receber dicas de leituras são alguns dos muitos benefícios de participar do Clube do Livro.  O auxiliar administrativo Luiz Fernando, 21 anos, fala sobre essa interação: “Com o clube todas as pessoas têm a oportunidade de participar, podem tirar suas dúvidas e compartilhar ideias, o que acaba promovendo cada dia mais a literatura. Eu, por exemplo, sempre tive uma afeição por um gênero literário especifico e com o clube acabei descobrindo e aprendendo a gostar de vários outros.” 

Michel Batista

Para o assistente administrativo Michel Batista, 27 anos, o Clube do Livro traz uma esperança de dias melhores para a literatura. “O Clube do Livro chega como um vaga-lume tentando iluminar a mente de cada um, mostrando a importância de ser leitor, de cuidar e amar os livros. Ao agir dessa forma, ele acaba mostrando que os outros vaga-lumes também têm sua importância, e aos poucos nos tornaremos lanternas e daqui a pouco um grande farol, preparado para dar um rumo e entendimento para aqueles que querem.”

 

Homenagem dos participantes aos 4 anos do Clube do Livro BH. 

Via Youtube: Lidia Munt

Além dos aniversários e encontros temáticos realizados periodicamente, em que todos os participantes saem com um mimo contendo guloseimas, marca páginas e bottons, participam de brincadeiras e sorteios de livros, as meninas do #Clube do Livro BH também promovem outras ações que incentivam a leitura 24 horas por dia, 365 dias por ano. Se você gosta de ler, vai se identificar com algumas das ações.

Clube do Livro no Whatsapp : O grupo foi criado para manter a interação entre os participantes do clube diariamente. Além de divulgar as ações, também há divulgações de eventos literários na cidade, brincadeiras semanais com premiações como livros e marca páginas. O grupo conta com 163 participantes, masculinos e femininos de diferentes idades e gostos literários.

Book tour: Dois livros viajam entre os participantes do clube. As pessoas leem, deixam comentários e recados e depois se reúnem para discussão. São eles: 

Em 6 meses já foi lido por mais de 10 pessoas. O livro conta a história Peter e sua raposa. Amigos inseparáveis desde que ele a resgatou, órfã, ainda filhote. Um dia, o inimaginável acontece: o pai do menino vai servir na guerra, e o obriga a devolver “Pax” à natureza. Ao chegar à distante casa do avô, onde passará a morar, Peter reconhece que não está onde deveria: seu verdadeiro lugar é ao lado de “Pax”. Movido por amor, lealdade e culpa, ele parte em uma jornada solitária de quase quinhentos quilômetros para reencontrar sua raposa, apesar da guerra que se aproxima. Enquanto isso, mesmo sem desistir de esperar por seu menino, “Pax” embarca em suas próprias aventuras e descobertas.

 Em dois anos já foi lido por mais de 30 pessoas. É o livro preferido da Letícia. Um livro sobre compreender uns aos outros, repleto de empatia, com um desfecho comovente e encantador que levará o leitor às lágrimas e dará aos jovens um precioso vislumbre do mundo todo especial dessa menina extraordinária. Conta No mundo de Caitlin, tudo é preto e branco. Qualquer coisa entre um e outro dá uma baita sensação de recreio no estômago e a obriga a fazer bicho de pelúcia. É isso que seu irmão, Devon, sempre tentou explicar às pessoas. Mas agora, depois do dia em que a vida desmoronou, seu pai, devastado, chora muito sem saber ao certo como lidar com isso. Ela quer ajudar o pai – a si mesma e todos a sua volta –, mas, sendo uma menina de dez anos de idade, autista, portadora da Síndrome de Asperger, ela não sabe como captar o sentido. 

Leitura coletiva: Além dos livros do Book Tour, outros exemplares são escolhidos ao longo do ano para leitura coletiva e posterior discussão em um piquenique realizado no Parque Municipal. Mais uma forma de promover a interação entre os membros do clube. Além de um incentivo a literatura, o que consequentemente aumenta as vendas daquele exemplar específico.

Lembrando que os encontros do #Clube do Livro BH são periódicos e temáticos. Fique de olho nas redes sociais e participe. Os eventos são realizados no Centro de Referência da Juventude, na Praça da Estação. A entrada é gratuito e sujeito a lotação. Ótima oportunidade para fazer aquela visitinha sem compromisso!

Acompanhe as redes sociais do Clube do Livro: http://bit.ly/2npwicA 

Hoje, além do apoio incessante dos irmãos Hugo e Laila, Letícia conta com o incentivo dos anjos voluntários, de grandes editoras e também da Prefeitura de Belo Horizonte. Os objetivos continuam os mesmos, conhecer as pessoas e promover a literatura. Um amor que começou em família e se tornou a família de muitos leitores. Lembra dos 67% que alegaram que não tiveram incentivo a ler? Pois bem! Não tem idade para começar, se a justificativa é a falta incentivo, que comecemos agora a mudar esse quadro e transformar os resultados da próxima pesquisa.

Conhece alguém que, assim como o #Clube do Livro BH, faz a diferença para promover a literatura? Envie sua história para contato@literalmenteuai.com.br, teremos o maior prazer em contá-la.

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