Adaptação de Dumplin’ traz a musa Jennifer Aniston e discute sobre padrões de beleza

Dumplin’ parecia só mais uma história de adolescentes sobre amizades e romances, e com o diferencial da personagem principal ser acima do peso. Mas foi muito mais do que isso. A obra de Julie Murphy é sobre se aceitar na própria pele, enfrentar preconceitos, amadurecer e, claro, amizades e romances.

Willowdean Dickson, ou Will para os íntimos, é uma garota de 16 anos muito inteligente e que tem uma personalidade incrível. Apelidada de Dumplin’ por sua mãe (que significa um bolinho de massa frito), Will é gorda assumida e nunca teve nenhum problema com isso. Ela mora com a mãe em Clover City, uma pequena cidade do Texas, que ficou famosa por sediar o concurso de beleza Miss Jovem Flor do Texas, conhecido em todo o estado.

A mãe de Will é ex-miss do concurso e dirige o comitê organizador há quinze anos. Todos os anos, ela faz questão de lembrar que ainda cabe no vestido que usou na época de sua coroação. O que dificulta mais ainda a relação entre mãe e filha.

“Esse concurso foi a única realização importante na vida da minha mãe. Ela ainda cabe no vestido – fato que não deixa ninguém esquecer, razão por que, na qualidade de chefe do comitê e apresentadora oficial, faz questão de se espremer do dito-cujo, numa espécie de bis anual para os fãs de carteirinha.” (pág. 17)

A principal referência na vida de Will sempre foi a sua tia Lucy, que faleceu não tem muito tempo, e a adolescente ainda está aprendendo a lidar com esse sentimento de perda. A tia de Will também viveu uma vida acima do peso, sendo assim, a jovem se sentia mais compreendida e mais amada por ela, já que ambas compartilhavam a mesma experiência.

As diversões para Will se resumiam em ouvir Dolly Parton, uma cantora country dos anos 70, e se divertir com a melhor amiga Ellen Dryver, que é o oposto dela: alta, loura e sexy. “As melhores coisas na minha vida começaram com uma música de Dolly Parton. Até mesmo a minha amizade com Ellen Dryver.” (pág. 7) Junto de Ellen, as coisas sempre deram certo para Will e ela não se incomodava com o bullying que sofria na escola, nem de colocar um biquíni e entrar na piscina.

“Sei que as garotas gordas deveriam ter alergia a piscinas, mas eu adoro nadar. Não sou boba: sei que as pessoas ficam encarando, mas não podem me culpar por eu querer dar uma refrescada. E por que isso deveria fazer alguma diferença? Por que ter coxas enormes e cheias de celulite me obriga a pedir desculpas à humanidade?” (pág. 24)

Mas as coisas mudam quando ela começa a trabalhar em uma lanchonete e lá conhece Bo Larson, o garoto bonito da escola particular, e crush platônico da jovem. Will não fica surpresa em ter se apaixonado por Bo. Os problemas realmente começam é quando esse amor é correspondido.

Bo é um jovem misterioso, bonito, atlético e monossilábico. Mas ele e Will se entendem. Eles começam a ter um caso escondido de todo mundo. Mas o envolvimento físico com Bo começa a deixar Willowdean desconfortável com o próprio corpo, e isso começa realmente a perturbar a garota.

“Minha cabeça inteira se voltou contra mim […] Até o começo do verão, eu me sentia totalmente à vontade com meu corpo. Até mesmo orgulhosa dele. Mas aí, Bo aconteceu. Desde a primeira vez que nós nos beijamos na caminhonete dele, foi como se eu desmoronasse. Alguma coisa no contato da sua pele com a minha fez aflorarem todas essas dúvidas que eu nem sabia que tinha.” (pág. 114)

Com esse novo romance, muitas dúvidas passam a surgir e essa insegurança muda a vida da adolescente, que se afasta de sua melhor amiga e vive ainda mais conflitos com sua mãe. No meio dessa confusão de pensamentos Will tem a ideia de se inscrever no concurso Miss Jovem Flor do Texas, e mostrar para a sociedade que pessoas acima do peso também têm seu charme e talento, e podem participar de concursos de beleza. Outras meninas que também estão fora do “padrão” se inscrevem junto com Will, e se tornam o apoio uma da outro, além de construírem uma amizade, que também foi uma surpresa na vida da adolescente.

A leitura de Dumplin’ é muito divertida e dinâmica. As piadas ácidas são o ponto forte da narrativa e o relacionamento familiar é muito bem descrito. E, de bônus, ainda temos a participação de drag queens numa espécie de fadas madrinhas.

Em algumas partes, Will irrita com atitudes de uma garota, às vezes, mimada e egoísta. Mas além de ter 16 anos e estar aprendendo sobre as coisas da vida, é muito legal a ver reconhecer os próprios erros e amadurecer. No final eu já queria ser amiga de Will também.

Dumplin’ o filme

Apostando no sucesso de mais uma adaptação literária, a Netflix lançou neste mês Dumplin’, inspirado na obra de Julie Murphy. Assim como o livro, o filme  busca discutir sobre padrões de beleza e, de quebra, o longa ainda traz a musa Jennifer Aniston no papel de Rosie Dickson, ex-miss e mãe da protagonista Willowdean Dickson, ou Dumplin’.

Já Will é interpretada por Danielle Macdonald (Bird Box), que consegue trazer para as telas o mesmo carisma da personagem da literatura.

Confira o trailer:

Numa rápida introdução, a trama consegue passar o forte relacionamento entre Willowdean e sua tia Lucy, que é quem foi responsável por formar sua personalidade. Nesse ponto, o filme se saiu melhor que o livro. Mas a parte positiva da comparação para por aqui.

Com direção de Anne Fletcher (A Proposta), o filme se passa de forma muito superficial quando comparado com os acontecimentos da obra literária. A narrativa trabalha bem a relação de Will com a tia, mas deixa de lado o namoro com Bo (Luke Benward), um dos relacionamentos centrais, que, inclusive, é o que dá início a todo conflito que surge na mente de Will.

Netflix/Divulgação

Na trama, Bo surge em segundo plano, como apenas o colega de trabalho bonitinho, crush de Will, que acaba descobrindo que é correspondida, mas sem aprofundar muito na história do casal.

Jennifer Aniston está linda como sempre, mas com pouco destaque no filme, mais mesmo como uma “coadjuvante”. De toda forma, Aniston consegue agradar ao público com sua personagem que, mesmo sendo uma ex-miss que se preocupa em caber no vestido antigo da premiação, tenta entender e ajudar a filha, e faz isso com bom humor. O relacionamento mãe e filha alcança ótimos resultados e agrada quem assiste.

Netflix/Divulgação

Apesar do roteiro do filme atropelar a obra de Julie Murphy, ainda vale a pena assistir Dumplin’. A produção é uma crítica à indústria da beleza, e traz a tona assuntos como pessoas acima do peso, os conflitos em seguir padrões de beleza e a não aceitação da própria aparência. O longa ainda trata de confrontar esses paradigmas com humor, mas sem deixar de lado a crítica a essa ideia.

“Dumplin’” pode ser categorizado como uma dramédia e a produção também já traz na bagagem uma nomeação ao Globo de Ouro na categoria de “Melhor Canção Original” para a música “Girl In The Movies”, garantindo uma indicação à lenda viva da country music, Dolly Parton. Além disso, o filme também conta com outras músicas originais de Dolly Parton e participação de algumas drags famosas, como Ginger Minj.

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