Victor Bonini faz parte de uma nova safra de autores nacionais que impressiona  

Autores contemporâneos estão inovando cada dia mais em todos os gêneros e mostrando que livros nacionais também podem ser divertidos e fascinantes, basta apenas dar uma oportunidade.

Escolhemos homenagear todos os meses um escritor nacional, apresentar o seu trabalho e consequentemente ajudar a quebrar aquele pre-conceito com a literatura nacional. Ao longo do mês apresentamos, resenhas, entrevistas e curiosidades sobre esses autores que tem mantido viva a literatura brasileira. Já passaram por aqui, Lavínia Rocha, Raphael Montes, Marina Carvalho, Eduardo Spohr e agora é a vez do paulista Victor Bonini, uma grata revelação da literatura policial. 

Nascido em São Paulo capital, Victor Bonini se mudou para o interior do estado com os pais ainda criança, e lá ficou até ingressar na faculdade de  jornalismo. Atualmente, ele concilia a carreira de escritor com outra paixão, o jornalista.  Sempre foi um apaixonado pelos livros, passeando pelos gêneros mais diversos durante a infância e adolescência. Essa miscelânea de histórias foi criando um gigantesco gosto pela leitura e por consequência, vontade de escrever as suas próprias. E foi cedo que ele começou a dar vida à imaginação, por volta dos treze anos, já brincava de ser escritor. Antes mesmo dos 18 anos  já tinha escrito dois romances policiais inteirinhos, que estão guardados, já que o autor os considera “imaturos”. 

A sua publicação veio em 2015 com o seu primeiro romance policial, “Colega de quarto”, uma história instigante sobre um jovem de classe média alta que começa a perceber sinais de que alguém está dentro de seu apartamento. Um chinelo que não é seu, uma escova de dentes estranha, mas o assustador é que ele mora sozinho e suas portas estão sempre trancadas. O que será que pode estar acontecendo? Logo uma morte ocorre e o detetive Conrado Bardeli, protagonista da história, precisa investigar a fundo para descobrir a origem deste mistério.

O livro foi sucesso entre a mídia especializada, sendo indicado por Raphael Montes, um dos grandes nomes da literatura policial na atualidade. Confira a resenha aqui.

Em 2017, Bonini lançou seu segundo livro, “O Casamento”, em que o protagonista é novamente Bardeli. Agora, ele precisa descobrir um assassino no meio dos convidados de uma festa de casamento bem fora da curva. Lotado de suspeitos e conflitos, Bonini conseguiu retratar muito bem a história de detetive em seus moldes primordiais.

Conrado Bardeli, é o detetive dos dois romances e tomara que continue aparecendo nas histórias do escritor, pois ele é um personagem que mescla muitas variações de personalidade e claro, com sua excentricidade conquista de cara. Confira a resenha completa aqui

Se você gosta de literatura policial, de uma boa investigação, histórias que vão te prender, conheça as histórias do nosso autor do mês abril, Victor Bonini. 

Aqui um pouquinho da sua história nessa entrevista exclusiva a jornalista Josiane Gonçalves

Quem é o Victor Bonini?

Eu nasci em São Paulo (capital), onde vivi até meus 6 anos. Depois, me mudei para o interior do estado – uma cidade chamada Vinhedo, com 70 mil habitantes (nanica comparada com a capital paulista!). Voltei pra São Paulo aos 18 anos pra cursar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, onde me formei em 2014. E fiquei por aqui desde então. Sou, portanto, jornalista por formação, e atuo como repórter desde 2015. Uma profissão inteira à parte dos livros!

Conte um pouco sua história com a literatura

Sempre fui muito ~artístico~. Na infância, aprendi a tocar violão, depois baixo, depois entrei para um grupo de teatro (só fui deixar os palcos no final da faculdade) e me meti na literatura de vez lá pros meus onze/doze anos. Até então, eu lia Harry Potter e livros infanto-juvenis e de fantasia. Mas comecei a DEVORAR livros quando descobri o gênero policial. Numa época da minha vida, eu não lia menos de um livro da Agatha Christie por semana. E olha que eu me considero um leitor lento. Era porque eu lia muito mesmo! Passava meu tempo livre grudado nas páginas. E depois de Agatha Christie migrei pro Harlan Coben, depois fui pro Dennis Lehane e PD James, aí a tríade Patrícia Melo, Rubem Fonseca e Luiz Alfredo Garcia-Roza, então Patricia Highsmith, Ruth Rendell, Stephen King… Aí passei a ler qualquer novidade de policial e terror que eu encontrasse. Em seguida, comecei a ler de todos os gêneros para abrir minha cabeça. Isso sem citar o momento em que meus amigos começaram a lançar livro e eu me apaixonei pelas histórias deles. Cito alguns: Raphael Montes, Tito Prates, Marcos de Brito, Marcus Barcellos, Vinicius Grossos, Julio Hermann… Diria que minha lista de leituras de hoje é uma montanha-russa: altos e baixos, um lado, depois o outro, giros, enfim.

Com quantos anos você começou a escrever suas próprias histórias?

Aos treze/catorze. Não me lembro exatamente. Foi nessa febre de romances policiais. Eu gostava tanto das tramas que automaticamente comecei a criar as minhas. Que cheguei ao fim foram duas. Eram livros de detetive bem ao estilo do modelo inglês whodunit (um crime, vários suspeitos reunidos, um detetive e uma revelação no final – uma fórmula que, guardadas as proporções, ainda sigo hoje). Até os nomes daqueles livros iniciais eram estrangeiros. Vendo hoje, percebo o quanto são imaturos (por isso que nunca vou lançá-los, apesar dos protestos de alguns haha). Mas me orgulho muito de ter escrito dois livros inteiros até meus dezoito anos. No início, não achei que seria capaz. Fui e isso me inspira até hoje.

Sempre quis publicar um livro ou escrevia apenas como passatempo?

No início, era passatempo, mas a partir do momento que ficou encorpado, decidi publicar. E não teve mais volta. Ficava aquela vontade que acaba virando combustível: você escreve e escreve e não desiste porque quer que os outros leiam. Afinal, não conheci até hoje ninguém que escreve para si próprio.

Você é jornalista, como é transitar nessas duas carreiras que tanto se misturam?

Sinceramente? Bem fácil. Ambos têm a mesma matéria-prima: a palavra. Mas suas semelhanças e diferença são bem claras. No jornalismo, eu sou objetivo (apesar de criativo) e penso minhas reportagens em cima das imagens que fazemos com a câmera. Nos livros, sou mais subjetivo, mais descritivo, mais ousado e mais crítico. Isso falando de linguagem. Quando a gente fala sobre tema, às vezes eu vejo a ficção virar realidade e vice-versa. Nesse ponto, meu lado jornalista ajuda meu lado escritor. É que como jornalista, precisei ganhar uma noção macro de como funciona a sociedade e suas corporações. Isso significa, por exemplo, que tenho experiências e conhecimentos de dentro da polícia e da justiça, o que é fundamental para um escritor de histórias de crimes.

Como é seu processo de escrita? 

Não tenho um ritual nem uma forma de inspiração. Acredito que as ideias vêm conforme você trabalha com a escrita. Vamos por partes. As ideias para os livros eu costumo ter no dia-a-dia. Geralmente, o insight vem do nada. A partir daí, penso nos detalhes em momentos em que minha cabeça está vazia, tipo tomando banho, caminhando, parado no trânsito… E, depois que eu tenho uma estrutura bem sólida, eu começo a esboçar o livro do começo ao fim. Às vezes, sinto a necessidade de voltar ou então de avançar e ir costurando o todo como se por pedaços. Isso no início. Depois de um dado ponto, eu funciono no cronológico, fazendo cenas sequenciais que traduzem aquilo que eu quero passar. Mas friso: tudo sempre com uma estrutura clara na cabeça. Afinal, o romance policial exige que eu distribua várias pistas sobre a identidade do criminoso ao longo do livro. Isso tem que ser pensado antes de eu botar a primeira letra no papel (ou seria na tela?).

Ao final do livro, eu costumo revisar duas vezes, depois imprimir, enviar para leitores-beta, receber feedback deles (e peço que os feedbacks sejam sinceros e críticos mesmo, pra que nenhum erro passe) e depois reviso uma terceira vez. É hora então de entregar ao editor. Daí pra frente, costuma ter mais uma ou duas revisões. Se você for contar, vai ver que, entre escrever e terminar, já li meu próprio livro umas cinco vezes.

Quem são os seus ídolos na literatura?

Lista interminável de alguns autores cujos livros tiveram papel fundamental para escrever, seja pela boa escrita, seja pelas boas ideias: Agatha Christie, JK Rowling, Stephen King, Nelson Rodrigues, Machado de Assis, Marcos deBrito, Marcus Barcellos, Harper Lee, Patrícia Melo, Ruth Rendell, Dostoiévski, Dennis Lehane, Caco Barcellos, Dráuzio Varela, Harlan Coben, Raphael Montes, Pedro Bandeira, Lygia Fagundes Telles, Dorothy Sayers.

Sempre gostou do gênero policial, e pretende mantê-lo em suas histórias?

Sempre gostei, mas não significa que ele será o único gênero no qual vou me aventurar. Tenho, inclusive, um livro de terror nos trilhos já. Me interesso muito pelo drama e por textos dramáticos também – influencia dos meus anos de teatro amador. Mas até agora não tenho nada programado para esses dois últimos.

Como você analisa as dificuldades enfrentadas por novos escritores para publicar um livro?

É difícil mesmo, mas repare que muitos nomes de hoje no mercado juram que, há cinco anos, só viam em sonho a possibilidade de publicar um livro e vê-lo numa livraria. Sou um desses. Quando escrevi “Colega de Quarto”, meu primeiro livro pensei muito em publicar. Mas via como algo distante, difícil. Tem a ver com nosso ainda pequeno público leitor. Eu fui teimoso e comecei a pesquisar como funcionava o mercado, quem eram os envolvidos, como eu poderia publicar, quais casas me aceitariam… E uma coisa é fato: o número de leitores cresce e este é um bom momento para novos nomes. O mercado já mostra isso, com a revelação de novos escritores a cada ano. O recado que eu tenho para os autores ainda não publicados é: insista! E seja receptivo para críticas. Melhorar constantemente e mostrar que está disposto a publicar são os primeiros passos.

Como escritor e jornalista, como você vê a ligação das duas profissões na construção de uma sociedade melhor?

Acho que ambas as profissões têm a ver com a construção educacional e cultural do cidadão. Escolhi jornalismo porque o via como instrumento social de mudança. Pode parecer óbvio, mas nem todos percebem que informação e cobrança são as maiores armas contra a ignorância. E são as armas que o jornalista dá para a população. Cabe a ela saber o que fazer com essas armas. Isso vem com a leitura – e já emendo com a próxima pergunta:

Defenda a literatura! Porque ler?

Claro que defendo, porque é ela que abre a mente das pessoas para duas coisas:

  1. O desenvolvimento intelectual, o que significa que as pessoas passam a entender melhor e responder mais assertivamente às informações que recebem no dia a dia;
  2. A empatia – é a virtude de se colocar no lugar do outro, mesmo que esse outro seja seu oposto ou represente o inimigo. É a capacidade de ser humano, solidário, compreensivo. Não são essas as características indispensáveis para um futuro promissor e inclusivo?

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