A adaptação do livro “A livraria” da escritora Penelope Fitzgerald estreia no dia 22 de março

O livro…

Florence Green só queria seguir adiante com a sua vida, após a morte precoce do marido em um acampamento de guerra. Amante dos livros, ela decide abrir seu próprio negócio, uma livraria, numa pequena cidade no interior da Inglaterra, Hardborough. Para isso, ela compra a Old House, uma casa abandonada  há sete anos [um dos motivos de discórdia], que está cheia de problemas estruturais e ainda por cima mal-assombrada por um “fantasma turbulento” chamado de batedor pelos moradores locais. Mas os fantasmas e a umidade da casa não são nada se comparado aos outros obstáculos que Florence ainda terá que enfrentar.

“… quando não havia em Hardborough nenhum hambúrguer, nenhuma lavanderia, nenhum cinema… sentia-se a necessidade de todas essas coisas, mas ninguém imaginara, com certeza não haviam pensado, que a Sra. Green pretendesse abrir uma livraria.” (pág.8)

A decisão de abrir uma livraria se torna o grande assunto da cidadezinha. Um conjunto de audácias, uma mulher, viúva, que vai sozinha abrir e gerir um negócio, e ainda por cima uma livraria, por que uma livraria? Esse é um dos questionamentos do gerente do banco na hora de liberar o empréstimo bancário, do seu advogado, e de vários outros personagens da história. Como se vender livro fosse uma afronta a sociedade. Mas, o maior obstáculo na vida de Florence serão as maldades de Violet Gamart, a grande dama da sociedade de Hardborough que vai infernizar [sem descer um segundo do salto] a vida de Florence e das pessoas ao seu redor, sob o pretexto de transformar a velha casa em um centro de artes. Com o passar da leitura, a Sra. Gamart vai se revelando uma mulher machista, invejosa e preconceituosa.

A grande qualidade da Florence, sempre evidenciada no livro é a coragem e a generosidade, uma mulher capaz de ser doce e afrontosa ao mesmo tempo. Dona de umas tiradas sensacionais, ela deixa claro, logo nas primeiras páginas, que nada e nem ninguém vai impedi-la de realizar seu sonho. Para isso, vai contar com algumas ajudas importantes como a do grupo de escoteiros que a auxilia na limpeza e organização da livraria. O Sr. Brundish, um viúvo recluso e misterioso, que se torna seu grande incentivador, admirador e crush. E por fim, Christine Gipping [minha segunda personagem preferida] uma menininha de 11 anos que vai trabalhar na livraria. Ela é muito esperta e tão inteligente e irônica quanto a Florence. Ela não gosta de ler, se incomoda com as pessoas que apenas circulam pela livraria sem comprar nada, e dá um show de organização e companheirismo. Adorei esse diálogo entre Florence e Christine, quando a criança se candidata para ser sua assistente:

_Por favor, não imagine que não quero considerar você apta para o emprego. Mas é que você, realmente, não parece ter idade nem força suficientes”.  

_Pela aparência não pode julgar. A senhora tem idade, mas não parece forte. (pág.60)

A livraria próspera e impulsionada pelas vendas do polêmico livro “Lolita”, do escritor Vladimir Nabokov, desperta o interesse da população para os livros e atrai até mesmo leitores de outras cidade, além do desprezo dos comerciantes locais, e claro, a ira da poderosa Sra. Gamart.

Com pouco mais de 100 páginas e uma escrita suave, permeada por metáforas inteligentes e pertinentes, e por meio de descrições precisas que inserem o leitor na história, “A livraria” é um livro que encanta. A força da Sra. Green em enfrentar tudo e todos para manter viva a sua livraria é emocionante e o final, surpreendente. Preciso registrar que ela se tornou uma das minhas personagens femininas preferidas, mesmo sem grandes cenas ação ou impacto. A história criada pela escritora britânica Penelope Fitzgerald é muito delicada e agradável de se ler. Por isso, fui com todas as expectativas possíveis assistir a sua adaptação literária. 

O filme…

A grande crítica dos leitores nas adaptações é a perda da fidelidade da história original. O que, em parte, não ocorreu nesta adaptação e, quando houve, só veio a acrescentar a história. A reprodução de alguns diálogos foi muito fiel, dando até para acompanhar o que os personagens diriam ou pensaria a seguir, como se o filme conversasse com o leitor. Gostei muito desse recurso, porque no livro também há um narrador que dialoga incessantemente com o seu leitor. Essa interação e essa “fidelidade” podem passar despercebidas por aqueles que assistirem ao filme sem ler o livro.

No filme, os encontros de Florence com o Sr. Brudish são mais intensos e mais impactantes. Uma alteração que deu certo, assim como o final tão surpreendente quanto no livro. A narração da história gira em torno das mudanças das estações e isso ficou bem evidente no filme, com as tomadas das paisagens bucólicas aliadas a trilha sonora e aos sons da natureza. O filme conseguiu transmitir a atmosfera do livro, apesar da luta do bem contra o mal, tudo ao redor parecia sempre estar calmo, em perfeita harmonia.

A história contada na “A livraria” é muito singela e os personagens são marcantes, cada um à sua maneira, os clichês são aqueles típicos de moradores do interior, que foram muito bem representados na adaptação. Todos os personagens ficaram muito parecidos com as descrições e personalidades do livro. Mas, quero destacar a atuação da Patrícia Clarkson como a Sra. Violet Gamart, que caiu como uma luva na personagem e, mesmo com poucas falas, conseguiu transmitir só com o olhar e a postura toda a soberba da personagem. Seguindo a safra de atores mirins de muito talento, Honor Kneafsey, deu um show como a assistente Christine cabendo a ela o gran finale.

Cena do filme

Como leitora, fiquei satisfeita com a adaptação, principalmente na reprodução de uma das cenas que mais me marcou: a troca de cartas entre Florence e seu advogado vendido, diante de mais uma das armações da Sra. Gamart. A protagonista, para variar, dá um pisão nele e deixa umas das frases mais marcantes do livro.

“Caro Sr. Thorton: Um bom livro é energia vital, preciosa para um espírito superior, sendo embalsamado e guardado como um tesouro, para que alcance uma vida além da vida; com tal, deve indubitavelmente ser considerado produto necessário”.

Apesar de ser um filme premiadíssimo no exterior, creio que por aqui fará mais sentido e sucesso entre aqueles que compartilham o gosto pela literatura e se identificam com a história de pessoas que, assim como a Florence, lutam para incentivar a leitura. Florence representa a inspiração, enquanto a Sra. Gamart, todo um sistema que poderia investir e incentivar a literatura e ainda todos aqueles que impedem o nosso desenvolvimento intelectual.

“A Livraria” estreia nos cinemas no dia 22/3 em todo o Brasil. Confira no site do Cineart os locais de exibição. 

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